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A Esquina do Desencontro

Histórias de Desencontros Ficcionais (ou Não) na Esquina da Vida

Um Novo Momento - Dia 16 - O Apagão da Memória

30.06.20 | Cuca Margoux

A tempestade que habita permanentemente a memória inconformada queda-se na devoção imaterial do sonho, numa batalha estelar que não se consegue vencer, nem destinar. Sono infame. Devaneio orquestrado. Subtil presença de pensamentos antagónicos e decadentes. Despertar ausentado. Numa qualquer estrada deserta por esse país fora, alguém passa sem pressa. Um feito. A memória estacou algures aqui. O que lembro do agora? De ontem e do amanhã? Visitados que foram todos os tempos espaciais, o facto do apagão se acentuar no presente, é deveras frustrante. As causas são estanques. Vetadas a intrusos temporais. Quem sabe, esquece, quem não sabe vive na ilusão de pensar que tudo sabe. A tempestade intensifica-se. A trama adensa-se. A história de pouco vale, evolui sem sentido. Todas as vidas se foram. Todas as experiências consumadas se esfumaram. Numa débil propagação da memória repuxada, as aparições fictícias elevam-se. Curiosa devoção ambígua perante o inexplicável e o abstracto ousado. As ovações que ao longe lançam confusão, relembram o sono que se quer esquecer. Ou a dormida inconsequente. A batalha pela memória acesa apregoa a dinâmica reencontrada numa qualquer dança volátil que ora pende para a emoção, ora pende para a razão. E a memória apaga, de novo. A permanente realidade converge para o presente, uma vez mais. O passado era demasiado longe e inalcançável, o futuro demasiado desafiante e imprevisível. Se prevalecer a crença de que o agora se molda, isso quer dizer que não memorizámos as aprendizagens passadas, despoletadas pelos erros nada pacificadores ou conciliadores que nos levaram de regresso à primitiva solidão de uma primeira memória. E isto determina todo o futuro, que terá esquecido o que foi antes, desligado sensorialmente do que é agora. Enfim, a dinâmica da memória temporal navega impassível pela linha das múltiplas vidas cruzadas. O apagão da memória é redundante. Tudo acontece. Tudo se reescreve. Tudo se destina. Tudo se confina. Tudo se determina. Tudo continua. Tudo é substituível. Até a memória. Até as memórias. Um ser aqui e outro ali. Quem se lembra? Ninguém. Tudo se esquece.