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A Esquina do Desencontro

Histórias de Desencontros Ficcionais (ou Não) na Esquina da Vida

A Esquina do Desencontro

Histórias de Desencontros Ficcionais (ou Não) na Esquina da Vida

Ser Madeira (Histórias de Uma Outra Viagem) - Parte II

É uma incógnita, de variáveis bem instáveis e saber digno dos segredos da adivinhação, previsionar o boletim meteorológico. O sol espreita, a nuvem chega e tapa, o nevoeiro invade, a chuva miudinha e tímida deixa-se cair, os deuses brincam com os mortais. Na descida, acompanha-se a linha limite da freguesia e vê-se mais além, lá bem mais além. A igreja do século XVIII surge no horizonte imaculada e referencialmente bem posicionada. Voltamos a ver mar, serra, gentes, casas. Tudo, daqui, parece mais pequeno, mais minimalista, mais resguardado. Um quadro delicioso para o artista que vagueia no espaço ilhéu. E verde. Muito verde. E mais cheiros florais. E cheiros caseiros. Coze-se o pão. Está quente e acabadinho de sair do forno. E alguns cães pelo caminho. Ladram saudando ou repelindo? Não os tentemos compreender. Afinal, somos apenas humanos e os animais são seres especiais, divinos, vivem numa outra dimensão do nosso mundo. Calem-se. Conseguirão? Talvez nos queiram calar no seu silêncio surdo. Se os ignorarmos, desaparecem. Esquecem-nos e podemos prosseguir caminho. O Lombo do Cunha termina num cruzamento. A vida para os lados, a morte para a frente. Seguimos a vida e viramos à esquerda. Passamos na casa dos avós passados. Já antes, tínhamos roçado a esquina das ruínas dos antigos. Agora, nada resta. Só esqueletos de pedra transfigurados pela erosão do tempo e das intempéries. O fantasma espreita-nos da casa e diz-nos adeus e mata saudades de tempos idos. A reta é infindável. Curva lá mais à frente e perde-se. Os carros vão passando. Transportam consigo histórias e realidade. Nova perdição para o olhar. A freguesia estende-se na sua pequena imensidão no campo de visão que corrobora aquilo que já sabíamos, há mais aqui. Muito mais. Escondido. Viramos para a estrada paralela à Quinta do Bispo. A penumbra das frondosas árvores ensombra-nos o caminho. Mas, sabe bem. Resguarda-nos, ainda que por breves instantes, do sol rei que nos espreita e que nos quer aquecer demasiado espraiando os seus potentes raios. A Fonte do Bispo. Nova volta, à direita. E a igreja, de novo, ao fundo. Estamos quase a terminar. Aguarda-nos o corgo e uma última e derradeira visão do Porto Santo perdido entre brumas de mistério e sereias de perdição e cantos encantatórios. A derradeira subida aguarda-nos. É mesmo o fim. A chegada a porto seguro, ao ninho que nos protege e abriga, à casa que cuida de nós desde pequenos, aquele cantinho especial que nos traz à memória dos sentidos boas e ternurentas recordações. Porque o bom e o bonito e o lindo existe no mundo. Temos é de procurar e saber procurar ou, então, esperar que nos encontre. E há-de encontrar.

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