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A Esquina do Desencontro

Histórias de Desencontros Ficcionais (ou Não) na Esquina da Vida

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Histórias de Desencontros Ficcionais (ou Não) na Esquina da Vida

Os Ofendimentos das Camélias

As camélias floriam no pequeno jardim do lago interior. As cores perderam o rasto branco da candura e a volúpia das brisas envolventes emergia despudoradamente numa dança decadente e fútil, ainda que materializada nas sensações ambíguas das observações tácteis sensoriais. As camélias, meninas primorosas e inocentes, fechavam-se em si mesmas. A sua dança era uma miragem fulgurante e só se arrastava, num rodopio esvoaçante, se se olhasse enviesadamente, para além do desconcerto intervalar do momento escondido. Ofensas de quem sabe, diriam que as camélias esgotaram a beleza da sua inocência, perdendo-se de amores pelos trinados melodiosos da cotovia e pelo piar monótono do mocho sábio que habitava a árvore mais frondosa do pequeno jardim do lago interior. Os ofendimentos das camélias tinham saltado uma geração, mas, infelizmente, perpetuaram-se nas seguintes. Aquela geração única, iluminada, tinha tido uma visão oracliana. A sua sabedoria intensificara-se e os conhecimentos do mundo floral concentraram-se, inesperadamente, num núcleo restrito de génese genética. A seiva, o tronco, as folhas singelas, a flor delicada, resguardavam o cumulado inspiracional de centuriões hirtos que protegiam as caducidades paradoxais da história interminável. Mas, a história daquela geração única de camélias, morreu. Matou-a o tempo e necessidade que há, na natureza, de lançar caos para tudo tornar, atempadamente e sem estragos consideráveis, à rotina, à normalização, à habituação previsível e expectável. Assim, foi um sereno instante glorioso de vã estrelato e, na geração imediatamente posterior, cuidou-se para que as coisas restabelecessem a sua ordem natural. Os ofendimentos das camélias prevalecem e, ainda hoje, se sentem os seus efeitos misteriosos no perfume do manto branco, sedutor, mas frágil, das pétalas sedosas caindo do céu inesperada e misticamente.  

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