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A Esquina do Desencontro

Histórias de Desencontros Ficcionais (ou Não) na Esquina da Vida

Os Diários Desconcentrados da Terra

22.05.24 | Cuca Margoux

Ela não sabe fugir da parceria contraproducente imposta por uma humanidade descrente e indiferente. Talvez, alguém se preocupe, alguém repense toda a dinâmica volátil da experiência, da vivência e da convivência entre elementos (in)tangíveis. Alguém que produza conteúdo significativo. Alguém que queira encontrar algum equilíbrio e harmonia. Até ver, os poucos influenciadores positivos não conseguem mudar as regras, os costumes ou os hábitos. Na teoria, tudo é possível, na prática, os obstáculos acumulam-se. O tempo redefine com frequência que a complexa espécie determine a rotina diária que se revive no planeta. Esta conciliação unilateral, numa tentativa constante de reconciliação premente com a ocupação dos espaços terrenos é ilusória, é ponto marcante para que os diários da Terra sejam sempre mais do mesmo. Que manifesta falta de vontade operacional é esta, que condiciona a inexistência de uma relação simbiótica produtiva e relevante entre espécie e habitat? Caminhamos no vazio do futuro, teimamos em penhorar a vida das gerações do agora e as vindouras, somos estranhos seres que planeiam com uma constância assustadora a sua própria extinção. A conversação divergente entre mentes pensadoras parece, por vezes, completamente distorcida e muito pouco produtiva. O que consegue unir a espécie? A necessidade de sobrevivência perante a iminência de uma ameaça. Mas, por vezes, nem isso leva ao concentrar de forças naquilo que é verdadeiramente importante. Somos muitos com ideias diferentes e somos crianças egoístas. Não crescemos no que é realmente importante. E vivemos, cada um, na sua aldeia local. A globalização é uma ideia transversal apenas aplicável à lógica expansiva corporativa. Os seres, as tribos, continuam imutáveis e muito pouco adaptáveis a “intervencionismos” de outras tribos. As nossas histórias e culturas e civilizações são todas diferentes e, no entanto, tão iguais, apenas damos nomes diferentes às coisas e falamos línguas diferentes e comportamo-nos de acordo com os referenciais incutidos pela família e pela sociedade a que pertencemos. Era suposto a Terra cuidar sempre de nós, mas, a Terra está cansada. E, por muito que nos ame e que nos queira proteger, já não tem capacidade para as nossas grandes birras, convulsões, confusões, manifestações, guerras, lutas e indiferenças. Os diários da Terra são, por isso, uma história recontada sempre da mesma maneira, todos os dias. E o tempo vai-se acumulando e passando. Sem diferenças, sem mudanças. Porque é que eu sou assim e ele é assado? Porque é que aquele tem sorte e o outro azar? Porque se nasce em sociedades mais permissivas e noutras em que tudo é condicionamento? Porque continuamos ingenuamente a pensar que tudo conseguimos e podemos controlar? A Terra está a dar sinais. Sinais preocupantes de esgotamento. E a espécie humana está a deixá-la esgotar-se passivamente. Ou há união e rebatemos em conjunto o declínio do nosso habitat, ou corremos o sério risco de mais cedo do que pensávamos ficarmos sem casa e sem recursos. O estranho caso da indiferença e da impotência humana perante os factos recorrentes é apenas comiseração inconsequente para aqueles que ainda se preocupam. Assim, se passam os ciclos das vidas na Terra. Por aqui nascemos, passamos e morremos. E o tempo não volta atrás, só avança. O espaço, esse, sofre transformação. Sempre. Por vezes, irrecuperável. O que conhecemos agora, deixamos de conhecer amanhã. Pois que desafio a que todos comecem os diários da Terra, na sua terra, na óptica de um legado histórico documentado futuro para todos os que vêm a seguir, porque, invariavelmente, não estaremos cá para os poder ensinar e alertar e proteger. A lógica é aprendermos com os nossos erros e não os repetirmos, mas a probabilidade de tal acontecer, infelizmente, costuma ser mínima. A mensagem é, no entanto, de esperança. De uma esperança conjunta em que muitos saberão liderar e incutir noutros coisas boas, melhores, que façam a diferença substancial e que contribuam para o melhorar da existência humana, garantindo a sua sobrevivência sustentável a longo prazo. O sonho ainda pode desconcentrar positivamente a vida.

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