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A Esquina do Desencontro

Histórias de Desencontros Ficcionais (ou Não) na Esquina da Vida

O Voo Inacabado

27.10.17 | Cuca Margoux

A liturgia da vida humana desencadeia murmúrios dispersos, num salão decadente, rodeado de paredes despidas pelo tempo infinito. As pessoas olham em redor e comentam. O discurso apelativo reduz-se no seu desencanto a uma quimérica panóplia de parafraseadas linhas audíveis. O estigma ilusório perpetua o sentimento vazio e inacabado. Naquele início de tarde, o homem ainda acreditava na magia do vento e impelido por forças sobrenaturais, testou finalmente a sua tenacidade e persistência. O aparelho, encalhado num hangar, algures num deserto qualquer, definhando sob o extremo calor, adivinhava desastre iminente. A ideia era aproximar o aparelho de um penhasco e lançá-lo ao sabor do vento. As pessoas silenciaram a voz, ao ouvirem tamanho disparate. Um aparelho voador. Um voo. Impossível. Surreal. Imaginação. Na verdade, aquela história surgia liturgicamente exasperante e desconcertante. As paredes ecoavam, de novo, um murmurejar mareado que não havia meio de sucumbir. O certo é que o aparelho foi movido até ao limite do penhasco, com engenho e força bruta, e aguardava a sentença final. O que irá acontecer? A loucura humana não tem fim! O mundo, inevitavelmente, está perdido! Aguardando a abençoada lufada de vento vespertino, o aparelho foi aprontado. A linha ténue entre loucura e engenho foi desafiada. O mundo aguardava em suspenso. Aí está ela. A força do vento. A magia das asas imaginárias. O aparelho é lançado. O voo foi inacabado.