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A Esquina do Desencontro

Histórias de Desencontros Ficcionais (ou Não) na Esquina da Vida

A Esquina do Desencontro

Histórias de Desencontros Ficcionais (ou Não) na Esquina da Vida

O Voo das Libélulas

A manhã amanheceu descolorida. O sol esqueceu-se de acordar e a neblina matinal invadiu o seu espaço. As cores morreram algures. As asas da liberdade estavam prontas para voar, embora com natural apreensão, uma vez que seria uma estreia e nem todos são objectos de metal voadores que, pelos vistos, quase nunca caem e em que tudo está programado milimetricamente. O vento soprava forte. Digamos que a Natureza olvidara o momento e não criara as melhores condições atmosféricas para o sucesso do empreendimento. Naquele dia, ainda por cima, o céu estava cheio de nada e de tudo. Obstáculos e mais obstáculos. Temerosas, a muito custo, as pequenas libélulas foram sendo empurradas para o mundo ou, pelo menos, para parte do mundo. Aquele que era suposto voar. Alto. O mundo aéreo confunde-se muito com o mundo das águas. Os azuis imperam e as tempestuosidades também. Invariavelmente, os dois mundos cruzam-se, por vezes, numa singularidade pontual que permite a transferência de energias alternativas e alternadas e que confundem os sentidos das pequenas libélulas, ainda inexperientes. As flores e os animais atiram-lhes incentivos figurados que soam qual inspiração apoteótica. O vento parece querer amainar. As árvores já não abanam com o vigor de há pouco. É tempo de arriscar. É tempo da metamorfose. É tempo de dar o salto. É tempo de crescer. É tempo de voar. E o infinito do horizonte é o limite. As pequenas libélulas acercam-se da borda e exercitam vigorosamente as suas belas asas. Têm esperança e estão felizes. Uma nova etapa se afigura e o mundo parece agora bem melhor. O batimento de asas constante e expressivo revela a essência do acreditar. E, num segundo incompleto, o corpo resvala no ar e o voo perfeito acontece. O voo das pequenas libélulas que passará a ser apenas, o voo das libélulas.

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