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A Esquina do Desencontro

Histórias de Desencontros Ficcionais (ou Não) na Esquina da Vida

A Esquina do Desencontro

Histórias de Desencontros Ficcionais (ou Não) na Esquina da Vida

O Verão Fechou

A viagem era sempre deveras emocionante, até porque a disposição marítima do oceano temperava as correntes e a imprevista ondulação. Tudo era surpresa. Do princípio ao fim. As previsões eram imprevisíveis e o mar do estreito deleitava-se com o descontrolo do homem do leme, brincando frequentemente com o casco e com o equilíbrio frágil da embarcação carregada de gentes e de mantimentos para a ilha. Houve tempos em que a travessia se revelava um verdadeiro tormento para as almas tentadas ao abandono da viagem. Nos momentos de acalmia, no entanto, a paisagem em redor deslumbrava e o gentio esquecia os demónios marinhos e as sereias enganadoras. No Verão, esses momentos de acalmia eram mais assíduos e, por isso, as viagens ocorriam também com maior frequência, mais diligentes e rotinadas. A beleza das duas ilhas era verdadeiramente contrastante. A ilha grande era exuberante de vida e verde, exotismo e extravagância, geografia e morfologia acidentada e incerta. A ilha pequena era plana, com picos ocasionais, e de uma aridez extremada. O grande oceano fazia a ponte entre ambas. Na ilha pequena a rivalidade entre terra e mar era gritante, porque as cores arrostavam e criavam uma dicotomia característica. Naquele ano, o Verão abriu as cores, abriu as histórias, abriu as coisas. Naquele ano, o Verão fechou. Fechou portas e janelas, caras e conversas, festas e romarias. Os veraneantes entraram expectantes. Os veraneantes saíram frustrados. As viagens continuaram e o descontrolo do homem do leme foi-se tornando mais comedido, mas nem assim, o Verão abriu. Quando o Verão fechava, a ilha pequena ficava mais vazia. Morria por dentro e entristecia. A maralha deixava de se espraiar pelas areias douradas e voltava sorumbática e contrariada para a urbe exasperante. Quando isto acontecia, os locais diziam sempre: o Verão fechou. Se calhar, para o ano, há mais. Os que partiam levavam as cores descoloridas, o calor frio e a saudade futura de um cheiro a estio insatisfeito e o sabor salobro a uvas e lambecas. A sazonalidade trazia enchentes e queria aquecer os corações. Mas, a pequena ilha que fechou o Verão, esqueceu-se de abrir a alma. Talvez no próximo Verão a abra. Abre sempre. O segredo é que só deixa entrar quem a ama e a vive intensamente.

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