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A Esquina do Desencontro

Histórias de Desencontros Ficcionais (ou Não) na Esquina da Vida

A Esquina do Desencontro

Histórias de Desencontros Ficcionais (ou Não) na Esquina da Vida

O Tempo dos Fios

Naquela época, na ilha, as fajãs eram quase inacessíveis. Os terrenos lá em baixo, junto ao mar, escondiam segredos só desvendados pelo gentio do campo que calcorreava, sob sol destapado, chuva picadinha ou névoa envolvente, o caminho, por demais inclinado, que se descia pela madrugada e se subia ao fim da tarde. Homens e mulheres na labuta da terra e da vindima, do cultivo estival, do amanhar do terreno que vai sendo cuidado, do florescer dos campos encantados, dos perfumes e cheiros temperados pela maresia. Percorrer aqueles caminhos, todos os dias, era duro e penoso e, assim, o engenho humano entrou em acção. A ideia do fio nasceu. O fio era uma espécie de teleférico. Na realidade, havia um ponto de partida, encimado no promontório, sobranceiro ao mar, um ponto de chegada, na fajã longínqua e minúscula à vista, um fio que ligava estes dois pontos, um caixote literalmente pendurado no fio e um engenho que movimentava esta geringonça, montada artesanalmente. Vistorias à segurança? Condições de mobilidade? Seguro para os ocupantes? Que estranhas alusões a fantasias holísticas inexistentes. Muitos fios se foram construindo, assim, por toda a ilha, ao longo do tempo, porque as fajãs eram férteis e os terrenos cultiváveis tinham de estar mais acessíveis, para levar os donos das terras, os devidos abastecimentos e as respectivas produções. A experiência daquela viagem, num caixote pendurado num fio, era um terrível desafio de luta mental entre hemisférios cerebrais, até para o aventureiro mais destemido. Iríamos mesmo chegar lá abaixo? E inteiros? É indescritível a sensação de mediação constante das emoções em crescendo, entre o início da viagem e o seu fim. No entanto, depois, rendíamo-nos à beleza das imagens únicas, do cenário fabuloso, gravados na memória visual, do abismo aos nossos pés, de uma morte possível, iminente e instantânea, num momento de desconjuntamento da geringonça, dos companheiros castiços que partilhavam histórias, ao longo da longa jornada de descida e subida, a qual nos afastava do mundo real e nos levava a experimentar uma espécie de sonho acordado surreal, mas presenciado e sentido. Acabaram os fios. O tempo dos fios findou. Uma pena e uma necessidade. Os caixotes começaram a cair e pessoas a morrer. Não mais se reergueram. Foram substituídos pelos teleféricos e ficaram apenas as recordações dos antigos e dos aventureiros. Muitas e belas recordações.

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