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A Esquina do Desencontro

Histórias de Desencontros Ficcionais (ou Não) na Esquina da Vida

O Que É Realmente Importante

20.01.20 | Cuca Margoux

Se enumerássemos as milhentas coisas estúpidas que fazemos ao longo da flutuante vida incerta, na grande maioria das vezes muito mais claras, expressivas e acertadas do que tudo o resto que nos dizem para fazer ou que estamos programados para fazer, o mundo não chegaria para coisa alguma ou chegaria para tudo e muito mais. A explicação factual racional não está documentada. O histórico experimentalista parece que tudo regista. Ou quase tudo. Não haveria limite para cada um de nós. Que maravilhoso pensamento! Cada precioso ser tem algo de diferenciador para mostrar ao mundo linear terreno. As dimensões que enquadram a nossa caixa de fachada fechada determinam a condução condicionada do caminho traçado, e destinado muito antes de nascermos e de sermos submetidos ao afunilamento compulsivo da imaginação. O impulso criativo é rotulado. A banalidade das nossas conversas e a falta de inovação recorrente acabam por não filtrar temáticas de interesse para todo e qualquer tipo de comunicação que queira despertar os sentidos mais atentos e mais críticos, na perspectiva de um outro aliado. É que a construção da vida é imprevisível e inesperada, surpreendente. O problema é que acabamos por ser sempre submetidos à mesma padronização hermética, e acabamos por esquecer o que realmente importa e por nos esquecermos de nós próprios, da nossa identidade, da nossa peculiar e única singularidade. Todos nós somos singularidade. Não há dois seres iguais. Se calhar, nem mesmo os clonados. A reprodução exacta do nosso conteúdo é delicada. Alguma variabilidade deve existir. Creio que a ciência possa falhar. Errar faz parte do nosso código genético, e ainda bem. Que monotonia cinzenta, se tudo e todos fossem transparentes. Criar mais um de cada um de nós parece contraproducente para a criatividade. É certo que a evolução previsível e controlada seria muito mais fácil e eliminaria defeitos genéticos, mas se não deixarmos a natureza seguir o seu caminho, arriscamos a um ensaio sobre a cegueira da verdadeira humanidade, que é marcadamente imprevisível, e a uma mecanização do espírito e da alma deveras aborrecida. Mais do mesmo. Balelas idiotas e sem sentido. O que quero eu dizer? Sinceramente, que a nossa vida não é minimamente aproveitada por nós, no seu melhor, porque temos definida logo à nascença a nossa progressão existencial, uma linha com um início e um fim, que todos conhecemos bem, cheia de objectivos traçados por alguém maior e mais omnipresente em nosso nome, e o que devemos ou não fazer durante esse curtíssimo interregno do etéreo em que pisamos solo terrestre e nos vestimos de pretensos humanos. Vivemos as vidas dos outros, de outros. Sonhamos com um destino nosso, mas que jamais iremos operacionalizar, conquistar ou alcançar. O que há de bom nesta vida terrena? O Amor. Só isso. Tudo o resto são banalidades, recursos materiais, empolamentos de aparências maquilhadas de felicidade. O rasto de destruição do condão desumano é brutal. O sonho é a nossa fuga. O subconsciente, a arma esquecida para empurrar as coisas para uma outra variante de consciencialização abstracta. O fluxo de ideias escorre descontrolado, desconexo e sem sentido. O cérebro ainda fascina, mas o Amor mata e faz viver, sentir, ser. Ser melhor. Fazer melhor. Entregar e render. Aprender. Dar e receber. Tudo. Enormemente.