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A Esquina do Desencontro

Histórias de Desencontros Ficcionais (ou Não) na Esquina da Vida

A Esquina do Desencontro

Histórias de Desencontros Ficcionais (ou Não) na Esquina da Vida

O Milagre da Vida

A pequena gota de orvalho escorria delicadamente sob o olhar atento do Criador Mor da serenata sôfrega e sofrida. Abria-se o encanto das almas naquele túnel escuro, rude e húmido, preenchido nas entrelinhas pela hera exuberante e fresca que descaía sobre vultos apagados. A vida não vive ali. O sítio morreu. As coisas pararam as prostrações perdidas e chegaram a um desrumo abrupto. Espera-se algo. Alguém espera. Espera algo. Os vultos movimentam-se, de novo. O Criador Mor sentenciou. A divina providência encadeará os trâmites possíveis, num alinhamento desprovido de realidade cotada. A bolsa da vida cobriu-se de vergonha e encerrou aberta para não mais fechar. O acontecimento é temido. As vestes dos vultos já não servem nem o fim, nem o propósito. A confusão generaliza-se. O medo e a ânsia propagam-se. A multidão sonora, num crescendo contínuo, espera. Está cansada de esperar. A sentença é ineficaz. Terá o Criador Mor perdido as suas faculdades milagreiras? O túnel torna-se cada vez mais pequeno e escuro e rude e húmido. O frio da penumbra e a fome sem tempo cobrem os vultos com os seus mantos invisíveis. Ali. Ao fundo. O horizonte amanhece. A terra acorda. Os vultos mutam. A pintura é agora colorida, invadida por auroras boreais que se propagam na mente incerta dos vultos de coração mais quente. O Criador Mor transporta a Vida. Dá-se o milagre. Transformam-se os mundos e as coisas e as pessoas. O Milagre da Vida acontece. A vida aconteceu. A vida acontece. A vida acontecerá. Os vultos continuam o seu incerto caminho, mas com esperança. O Criador Mor encerra os seus desígnios desalentados e esfuma-se qual nuvem levada pelo vento repentino. No dia brilhante só se escuta o rio que passa, a água que gorgoleja, o tempo que morre e o espaço que fica.

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