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A Esquina do Desencontro

Histórias de Desencontros Ficcionais (ou Não) na Esquina da Vida

A Esquina do Desencontro

Histórias de Desencontros Ficcionais (ou Não) na Esquina da Vida

O Meu Avô

O meu querido avô partiu, faz hoje três anos. Acredito que, tal como a minha querida avó, esteja onde estiver, lá naquele céu paradisíaco que existe algures, nos protege e olha por nós. Quero crer que ambos se terão reencontrado e estarão agora, de novo, felizes. Sempre foram um casal amoroso e ternurento. Havia muito amor, respeito, compreensão e dever para com a família. Complementavam-se e completavam-se de uma forma extraordinária, o que era uma verdadeira façanha, tendo em conta que eram aparentemente o oposto um do outro. O meu avô era uma pessoa excepcional, um ser humano verdadeiramente único. Era um homem de família, muito conservador nos seus valores e princípios, mas sempre ponderado nas suas decisões últimas. Educação esmerada, integridade, respeito e extrema rectidão no trato com os outros eram características incontornáveis. Era pragmático, muito prático, forreta até mais não e muito rígido nas poupanças. Se fosse preciso, calcorreava todas as mercearias da freguesia para encontrar o produto que queria, a um preço considerado, por ele, módico e justo. Homem multidisciplinar, respeitado por todos, ocupou cargos de relevância na esfera político-administrativa da freguesia que o recebeu, a nível concelhio e regional idem. Disciplina, regras e desporto andavam sempre lado a lado e faziam parte das suas rotinas habituais e diárias. Adorava caminhar e fazer ginástica logo pela manhã, hábito que adquiriu nos tempos idos de jovem militar. Sempre me impressionou a sua constituição desportista e a sua caixa torácica grande, larga, espadaúda. A equitação também foi, durante muitos anos, uma amiga fiel e adorava cavalgar no seu corcel por veredas e montes, especialmente na Quinta da Pêga, sua morada em menino, e pelos Caminhos Reais, incertos e perigosos, Madeirenses. Amava a literatura, a escrita e o desenho. Era um artista discreto e reservado, mas muito talentoso. Apesar de ser ribatejano de gema, pelo coração se entregou à Pérola do Atlântico, onde conheceu o amor da sua vida, a minha avó. Sempre detentor de uma memória invejável, lúcido até ao fim, adorava jogar xadrez e damas e não vivia sem as suas indispensáveis palavras cruzadas. Homem rijo e saudável, sempre gostou das actividades ao ar livre. Era apicultor nos tempos livres e as suas experiências agrícolas, especialmente enxertos e afins, eram reconhecidas pelos locais e por toda a família como verdadeiramente inovadoras e criativas. Original era também o seu gosto gastronómico: ovos de codorniz faziam as suas delícias, assim como perdiz. Enfim, sinto sempre muito dele quando ainda visito a Quinta ribatejana que, entretanto, já não é da família. Os cheiros a oliveira, figo e aguardente de figo, lembram-me os verões passados em família. Guardo na memória a sua figura e boa disposição, ao passear pelas ruas da freguesia e ao cumprimentar, com um aceno muito próprio, os viandantes com quem se cruzava. O meu avô era um homem bastante completo. Um homem com história. Lembrá-lo é manter a sua singularidade viva. E todos os dias, a partir de pequenas coisas que me vão acontecendo, o lembro com muito carinho e saudade.

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