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A Esquina do Desencontro

Histórias de Desencontros Ficcionais (ou Não) na Esquina da Vida

O Estranho Renascer

31.05.17 | Cuca Margoux

Descartou a visão turva, numa meada falhada de emoções perdidas. O cenário quente afigurava-se maior do que a virtualidade dos sonhos vazios. Nascia e morria. Nascia e morria, de novo. Renascer, desvairadamente, cansava a mente magna do poeta revivido. Estranhamente, o cenário mudava a cada estação. O tempo delineava os planos promissores de eternas primaveras em flor. O expoente máximo da migração da alma, descortinava pecados originais de vanglória anunciada, ainda que retida na ostentação imaculada dos afazeres questionáveis. O ciclo de vida e morte em contínuo, colmatava a surreal aventura dos sentidos despertos, mas impotentes. O estranho renascer do poeta assustou o povo simples que o rodeava. A casa, pintada de cal, ladeada por floreiras profusas e coloridas, encenava o idealismo abstracto de uma realidade figurada e expressiva. O povo habituara-se ao poeta. Aquele homem único e misterioso que delirava e contava histórias ausentes, com figuras presentes. Os seus personagens, ambíguos e versáteis, cobriam o imaginário do povo. Sempre assim fora. Mas, quando o poeta partiu naquela viagem, para um estranho renascer, o desconhecido assoberbou o povo, de repente. O próprio poeta reaprendera a viver, num momento parado, num momento paralelo, num momento em descontínuo racional. Assim, aquele mundo mudou. O mundo do poeta. O mundo do povo. Ninguém compreendeu o acontecimento que gerou tamanha mudança. Nunca ninguém o compreenderá. O certo é que aconteceu. Está acontecido. Quanto ao resto, o futuro e o destino agoiram boa fortuna. Ou não.