Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A Esquina do Desencontro

Histórias de Desencontros Ficcionais (ou Não) na Esquina da Vida

A Esquina do Desencontro

Histórias de Desencontros Ficcionais (ou Não) na Esquina da Vida

O Aniversário

Ao soprar as velas temerosas em quantidade e feitio, no bolo estupidamente plantadas, com tamanha desordem que mais parecia que nada daquilo tinha sido meticulosamente planeado, fechou os olhos com força e suspirou. Bati mais um recorde. Continuo miraculosamente viva. Os diagnósticos repetitivos e cansativos que ouvira no último ano, de bocas iluminadas e doutorais, previam o chamamento final com infinita convicção não deixando, por isso, margem para qualquer dúvida: o fim aproximava-se velozmente. Acontece que nada aconteceu como previsto. O aniversário comemorava-se, uma vez mais. Rodeada de familiares e amigos, boa disposição e agradecimento eterno, depois de soprar e suspirar, depois de ver a vida toda acelerada num filme contínuo sem intervalo, depois de sentir-se ainda viva, permitiu-se a si própria formular um desejo segredado. No seu pensamento, parecia perfeito. O vento manso e a brisa perfumada interromperam-lhe a lucidez e transportaram-na, de novo, para aquela cama insonsa e fria que escondia a sua morada, há já cinco luas. Alucinações e apatias, momentos de realidade temporária preenchiam agora os seus dias e noites. Ninguém sabia o que tinha. A ilusão dos diagnósticos sonhados fazia acreditar que algo poderia ser conquistado. Mas, nunca era. A alegria renascida, o corpo em movimento, a alma em devaneio, o coração sobressaltado, todos presos, ali, naquele marasmo permanente e pungente. Como seria bom voltar a sentir o mundo, a vida, os sentidos, as forças da natureza, o amor. Dispersa nestas considerações desconsideradas e desajustadas, nada funcionais ou consequentes, suspirou de novo, tal como tinha feito quando soprou as velas temerosas imaginárias. Seria mesmo o dia do seu aniversário? Não se lembrava de ter vivido, nem tão pouco de ter nascido. Tudo era escuro. O breu toldava-lhe a mente. Esperançosa no futuro sustentável da sua consciência, olhou-se num espelho mágico de fantasia e repetiu o desejo. Não se sabe o que aconteceu verdadeiramente, mas o certo é que, misteriosamente, a cama insonsa e fria ficou vazia. Vazia de corpo e de alma. A vã viajante entrou e percorreu o túnel estelar afunilado, circundado por esperança, e materializou-se em luz fusiforme profusa e radiante. Fora-lhe concedido o desejo do aniversário. Era, finalmente, livre e feliz.

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2016
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub