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A Esquina do Desencontro

Histórias de Desencontros Ficcionais (ou Não) na Esquina da Vida

A Esquina do Desencontro

Histórias de Desencontros Ficcionais (ou Não) na Esquina da Vida

O Aniversário

Ao soprar as velas temerosas em quantidade e feitio, no bolo estupidamente plantadas, com tamanha desordem que mais parecia que nada daquilo tinha sido meticulosamente planeado, fechou os olhos com força e suspirou. Bati mais um recorde. Continuo miraculosamente viva. Os diagnósticos repetitivos e cansativos que ouvira no último ano, de bocas iluminadas e doutorais, previam o chamamento final com infinita convicção não deixando, por isso, margem para qualquer dúvida: o fim aproximava-se velozmente. Acontece que nada aconteceu como previsto. O aniversário comemorava-se, uma vez mais. Rodeada de familiares e amigos, boa disposição e agradecimento eterno, depois de soprar e suspirar, depois de ver a vida toda acelerada num filme contínuo sem intervalo, depois de sentir-se ainda viva, permitiu-se a si própria formular um desejo segredado. No seu pensamento, parecia perfeito. O vento manso e a brisa perfumada interromperam-lhe a lucidez e transportaram-na, de novo, para aquela cama insonsa e fria que escondia a sua morada, há já cinco luas. Alucinações e apatias, momentos de realidade temporária preenchiam agora os seus dias e noites. Ninguém sabia o que tinha. A ilusão dos diagnósticos sonhados fazia acreditar que algo poderia ser conquistado. Mas, nunca era. A alegria renascida, o corpo em movimento, a alma em devaneio, o coração sobressaltado, todos presos, ali, naquele marasmo permanente e pungente. Como seria bom voltar a sentir o mundo, a vida, os sentidos, as forças da natureza, o amor. Dispersa nestas considerações desconsideradas e desajustadas, nada funcionais ou consequentes, suspirou de novo, tal como tinha feito quando soprou as velas temerosas imaginárias. Seria mesmo o dia do seu aniversário? Não se lembrava de ter vivido, nem tão pouco de ter nascido. Tudo era escuro. O breu toldava-lhe a mente. Esperançosa no futuro sustentável da sua consciência, olhou-se num espelho mágico de fantasia e repetiu o desejo. Não se sabe o que aconteceu verdadeiramente, mas o certo é que, misteriosamente, a cama insonsa e fria ficou vazia. Vazia de corpo e de alma. A vã viajante entrou e percorreu o túnel estelar afunilado, circundado por esperança, e materializou-se em luz fusiforme profusa e radiante. Fora-lhe concedido o desejo do aniversário. Era, finalmente, livre e feliz.

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