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A Esquina do Desencontro

Histórias de Desencontros Ficcionais (ou Não) na Esquina da Vida

A Esquina do Desencontro

Histórias de Desencontros Ficcionais (ou Não) na Esquina da Vida

Inventores de Sonhos

Os sonhos fugiram tempestuosamente, numa miríade de breves lufadas refrescantes de contenção racional que encadeavam, num contexto revisitado, narrativas fortuitas embaladas meticulosamente no arquivo consciente dos anciões da aldeia, já debilitados fisicamente, é certo, mas de memória concisa e espirituosa. Uma mais valia consensual no seio da delegação de sabedoria e conhecimento supremo, existente e necessária na aldeia. Transmissão do código genético primário, numa devolução de réstias de crivamento emocional, retido numa paragem temporária e paradoxal, cuja correlação se afigura potencialmente estável. Chamavam-lhes os Inventores de Sonhos. Quando uma criança nascia, a sua mente era visitada pelos Inventores de Sonhos e a sentença futura determinada. Sucesso ou insucesso? A análise ao virtual coração descomedido, ainda inocente, inato e imaculado, complementaria o diagnóstico prévio e definiria irreversivelmente o destino inevitável. Os sonhos revelavam a essência do adulto dentro da criança. Assim, os sonhos vaticinavam a boa sorte ou a má fortuna. Este ritual era incontornável e a ansiedade dos pais e familiares inconsequente. O fado era traçado há nascença e nada havia a fazer para o impedir. A selecção natural dos Inventores de Sonhos comprometia a esperança das gentes da aldeia, uma vez que a liberdade condicionada resistia, de geração em geração. Parecia, assim, impossível que os sonhos se traduzissem nos desejos subconscientes do gentio pequeno. Certo dia, porém, nasceu uma criança cujos sonhos eram indefinidos. O futuro não era claro e os Inventores de Sonhos não os conseguiam ler, decifrar. Pela primeira vez, na aldeia, houve esperança e liberdade, ainda que involuntária. A mudança operava-se, por fim, e os Inventores de Sonhos abalaram. Os sonhos voltavam a pertencer a quem os tinha, sem censura ou condição repressiva. Esfumou-se a contenda divina e o terreno conquistou, de novo, a emoção verdadeira do primeiro choro de uma casta criança. Os Inventores de Sonhos foram morrendo e caíram no esquecimento da aldeia. Talvez, um dia, tornem ao imaginário do gentio, mais moldáveis, flexíveis e atentos às necessidades reais dos sonhos de cada um. Só o tempo o dirá.

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