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A Esquina do Desencontro

Histórias de Desencontros Ficcionais (ou Não) na Esquina da Vida

A Esquina do Desencontro

Histórias de Desencontros Ficcionais (ou Não) na Esquina da Vida

Esqueci-me da Chuva

O mundo desaba tempestuosamente, num oceano de mares entrelaçados. O inferno ventoso, fitou as habitações sem resguardo, os veículos desprotegidos e as pessoas que molham as vestes e os corpos diminuídos, assistindo, numa correria virtual, inexistente, passiva e impotente, ao espectáculo monótono e decadente de uma chuvada desmesuradamente incompreensível que se abate numa terra seca de emoções estivais e de sentimentos verdadeiros. Potencia-se o esconderijo dos anjos solitários que protegem, num guarda-chuva gigantesco, a humanidade perdida naquele breve lugar imaginário, desapegado do mundo. O som forte da agressão em contínuo dos elementos descontrolados, inibe os sonhos de uma saída ilesa e inconsequente. Assim, limita-se a acção à falácia moratória de constituir ilusoriamente uma construção resguardadora de intempéries e devoradora de circunstâncias monumentalmente naturais, de humores variados e ilimitados, que teimam em apoquentar, em crescendo, a comunidade passível, que continua a admirar os céus taciturnos e escuros, a sentir as brisas pesadas, potenciadoras de cataclismos mediáticos, e a assustar-se com os raios dos reinos voadores, que enchem as histórias mitológicas do universo infantil, esporádico e momentâneo. Abrem-se as portas fechadas. Fecham-se as janelas abertas. Os rios de água volumosa correm na torrente incandescente azul, os cântaros cheios esvaziam a solidão do precioso líquido oferecido com a gratidão ingrata da migração retornada e a vida, antes, pacífica, transforma-se num dinamismo comportamental descrito em atitudes concretas, manifestamente ignoradas, num qualquer outro cenário cinematográfico. O céu caiu na terra. O verde ficará mais verde, onde já o era. Ou será levado pelo dilúvio. O deserto, infelizmente, continuará deserto. Aí, os reinos voadores não chegam e os raios não vertem fluído cristalino. A variação pluviométrica tão desequilibrada entristece a esperança e apaga a chama azul espalhada. A estação das monções jamais será controlada e as enchentes, nos diques, estancadas. A luta é desigual. A luta é, apenas, humana. Nossa. E a Natureza vence. A Natureza ensina. A Natureza lembra as nossas fragilidades e as nossas limitações. Voltamos à nossa humildade existencial, num ciclo de vida ecossistémico, com trocas de contabilização extraordinária, num débito creditado de somas multiplicadas, pela evasão às nossas responsabilidade universais futuras. Mas, continuamos. Por aqui, estamos. Por aqui, ficamos. Até ver e até que nos deixem. Esqueci-me da chuva, mas ela lembrou-se de mim. E de nós.

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