Escritos da Era Bélica - Dia 19 - Um Outro Natal Passado e o Ano Que Se Quer Novo
(A descrença reflecte a falta de magia. O acreditar sonhado transforma-se naquela adoração de que uma ideia criada pela confusa estratégia renegada, aquela que empola o viver desconcertado e a ambiguidade definida, é fantasia acesa e real, numa experiência qualquer ancestral. Não se reconhece a verdade natalícia, nem tão pouco se espera mudança, presente ou futura. A rotina é recorrente e o que se espera do novo ano, calma, apenas aparente. Já sabemos tudo de cor e salteado, na tradição humana da expectativa controlada e regrada, nada é verdadeiramente novo, nada é verdadeiramente diferente ou divergente. A convergência dos costumes dá confiança e transmite segurança. O conhecido é por demais bom e benéfico. Aconteceu que tudo foi linear. As compras fizeram-se, os presentes foram entregues, os rostos talvez se tenham iluminado, a esperança reacendeu. Agora, na viragem do ano, nesta entrada apenas permissiva para alguns poucos abençoados com a visão de um optimismo prometedor, renegar a realidade universal do conflito conjuntural, estrutural e enraizado é vil incumbência que assombra a mente ponderada e ainda, talvez, um pouco iluminada. O discurso e o curso da existência, erráticos no seu desenrolar, assumem a face exposta da narrativa passada, presente e futura. Ou, talvez, traduzam simplesmente o sentimento alvoraçado e desconcertado que se reinicia na mente pensante a cada nova época natalícia e a cada passagem de velho ano. É esta a subtileza do mistério da vida normalizada, aceite em resignação e submissão, sem expectativa.) Luzinhas, cores, enfeites, embrulhos, presentes. O coração é invadido, de novo, pela esperança de algo menos obtuso e escuro. A iluminação da mente feliz, pela visão abençoada de formas e feitios estilizados, recriados e transbordantes de felicidade, cheios de promessas cativantes, feitas de esperança e do acreditar pio de que a vida será um pouco melhor, pelo menos, nesta altura do ano, são revogação de penas e pecados anteriores e reforçam o esquecimento do que antes de mau se passou durante o ano. Elevados pela glória do perdão, a vida não mais se dispersa e a magia acontece, tudo se revela e tudo muda, para melhor ou, pelo menos, para menos pior, assim se espera. A entrada no ano que se quer novo, reflecte a precisão de um estado de alma mais concentrado no afunilar repressivo de maus pensamentos, na contenção de alegrias sem nexo, na fibrilação desmesurada das boas energias do coração, na visão ilusória deliciosa de que se controla algo, alguém ou alguma coisa, na repetição imaculada de ter um sonho feliz que se transforme em realidade. O Natal passado que se acumulou na lista de natais passados, reescreve a volatilidade do ser existencialista, na esperança da sua pseudo humanidade reconvertível, que cria aquele eterno engano de que é possível mudar a factualidade comportamental do mundo. No ano que se quer novo, seria mesmo uma falácia alterada se tudo se transformasse em sanidade não apenas momentânea, em benevolência, bom senso e ponderação ampliada, em lógica emocional concertada e concertante, em sentido de justiça igualitário, em equidade de equilíbrio e sensatez, em fuga às decisões menos pensadas, talvez mais retratadas que realizadas, em incompreensão bem sonora de que o assombro do mundo se revela no ego enfurecido e incompreensível de seres humanos desmesurados, potenciadores de condicionalismos de espécie quase incorrigíveis e criadores de destruição de caos massivos, em pureza e inocência agilizadas que encerrem as criptas do conflito não residual e a dor e o sofrimento e a vilania e a morte precoce. Sentidos apartados, pois, nesta revelação, aparentemente determinista e desconjuntada, sobre uma universalidade nada apaziguadora, infelizmente. Escritas inconsequentes, pensamento insignificante, conhecimento exuberante, saber exótico, estóica resiliência, louvável tenacidade, abençoada ingenuidade.
