Escritos da Era Bélica - Dia 17 - O Eterno Desencanto da Volatilidade Humana
(A expressiva incontenção demagógica que altera os desígnios da extensa provação humana, resplandece obtusamente na viragem de mais um ano mergulhado na obscuridade da palavra e da razão, feito de desinformação e de muito pouca devoção aos valores básicos da humanidade cristalina, sensível, ponderada e iluminada. Os tempos são decisivos na precipitação perspectivada pelo desencanto de uma alavancagem social frustrante e desviante. No tombo maior da humanidade, a volatilidade do desejo e do sonho perde-se na vivência exasperante de um avanço minado projectado num caminho sinuoso, reconduzido e constrito. Não permitir o futuro certo, condicionando o acesso à verdade e ao bom senso, é figuração realista que desprende da mente errática do glorioso poderio universal, que teima em ser visível na aceitação da desconstruída palavra incógnita. O desconhecimento do livre pensamento, do conhecimento altruísta e do saber comprovado, inibe as decisões permeáveis, regredindo na revelação de falácias evidentes e de discursos de superação mais ou menos convincentes. A consciência colectiva revela-se na sua mais profunda individualidade. Os dados são lançados e a vida acaba.) Sempre as mesmas conclusões, as mesmas recorrências, os mesmos discursos, as mesmas posturas. O entendimento é sofrível, mas divergente. Os objectivos não comuns são mais que muitos e já não se projecta a verdade do futuro geracional. Os fossos evidentes intensificam-se nas negociações realistas ausentes. Os ciclos capitalizam o passado sem sentido presente ou futuro premente. A vida que não acontece, na consciência opaca de um destino sem iluminura ou formosura, despoleta a sensação de uma falsa linearidade existencial, controlada e estrategicamente programada. Um passo sem chão. Uma viragem sem apoio. Um andar enviesado. Um pensar condenado. A tal menção ao colectivo da alma, na sua individualidade premiada, é engano e retrocesso finalizado. O que se acumula na mente e na alma ao longo de uma vida é encarcerado, por falta de capacidade de passagem ao próximo. O que cada um sabe, na sua humanidade terrena, é seu e só seu. Os seus saberes e conhecimentos, as suas experiências, são inacessíveis e intransmissíveis, e a aprendizagem perde-se, sobranceira aos louvores dos mais expeditos. Carregar num botão e não pensar. Esperar um sim ou um não. E o que fica no talvez, ou no porquê, ou no como, ou na história? Quem expressa a sua essência, o seu sentimento, é devorado. Na penumbra é preciso ficar, naquele descanso sereno de uma sombra que vai crescendo e que tudo protege. Assim, se nasce, se cresce e se morre. Na volatilidade de um desencanto manifesto, de um viver regulado, aquela fugaz réstia de esperança se desmaterializa, canalizando o sentimento e a emoção para uma dispersão assombrada que vai permitindo a aceitação mundana do ser humano. Não há cura. Não há certeza. Os acontecimentos são surreais e as acções terminais. Os comportamentos desfazem a lógica e a inteligência regride. O tempo não pára, mas está parado. O espaço muda, mas não é mudado. As palavras são libertadas, mas não se escutam. O pensamento fluído é convexo e a partilha dos discursos meramente refractária. O eterno desencanto da volatilidade humana é a verdade repartida, na alternância da mentira prometida, do retalho inclusivo diversificado, da variação espiral alienada, da mutação social real exacerbada, do ser por ser sem ser, do poder embirrento, da força colectiva figurada. Adeus, bom porto. Adeus, esperança. Aceite-se o que se vê, mesmo sem se ver, o que se bebe sem prova, o que se sabe sem lógica.