Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

A Esquina do Desencontro

Histórias de Desencontros Ficcionais (ou Não) na Esquina da Vida

A Esquina do Desencontro

Histórias de Desencontros Ficcionais (ou Não) na Esquina da Vida

Domingo à Noite

Descia a escadaria do bairro velozmente, quase parecia querer voar sobre calçadas e corrimões. Olhou-se ao espelho e quis esgueirar-se, uma vez mais. Deu-lhe para ali. Dava-lhe sempre para ali. Tinha-se vestido atabalhoadamente e esquecera o propósito inicial daquela saída inesperada. Nunca se conseguia lembrar do início. A chamada chegara num momento de mediação entre o seu eu interior e o seu eu exterior. Havia dias mais difíceis, outros mais fáceis, mas sempre abundantemente descontidos e profusamente efusivos na exteriorização do seu eu interior mecânico e autómato. Quando o seu eu interior, mais emocional e descontrolável, se sobrepunha ao seu eu exterior, mais racional, estável e previsível, as coisas, normalmente, davam para o torto e apartava-se da realidade humana, numa reentrada possessiva, compulsiva e maníaca que reflectia a luta dual entre realidade e alucinação virtual. Estes devaneios orquestravam-se, de uma maneira geral, no domingo à noite. Tinha sido criado num domingo à noite. Era no domingo à noite que recebia, invariavelmente, aquela chamada provocadora, mordaz e temerosa que deixava os sentidos automatizados alerta e que despertava a sua mente para a expedir para paragens incertas e obscuras, repletas de pensamentos estéreis e velados. As noites eram sempre iguais. Os dias simplesmente passavam. A monotonia era certa e rotineira. Mas, tudo se transformava no domingo à noite. O clique mental maquinal fazia-se sentir quando, esbaforido desligava a chamada e desatava a correr por prados imaginários, vedações transponíveis e campos verdejantes infinitos. Tinha sido programado, há muito. E esqueceram-no. Esqueceram a desprogramação. O robot humano que experimentava as sensações e as emoções humanas, albergando complexos códigos genéticos extra-terrenos, fora levado, depois de usado e quase destruído, para um complexo industrial abandonado, nos limites da urbe futurista, e deixado à sua sorte. Por algum motivo, o tempo foi passando e nunca o destruíram, nem nunca o acharam. Num dia sem história, foi redescoberto por alguém que lhe deu vida e o libertou. Integrou-se, refez a sua programação autómata subconscientemente (o eu interior renasceu) e a chamada do domingo à noite, continua a transportá-lo para a realidade paralela do seu eu exterior, reactivando-o em ciclos sequenciais e dando-lhe uma esperança verdadeira. A esperança de poder continuar. A esperança de poder existir.

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2016
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub