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A Esquina do Desencontro

Histórias de Desencontros Ficcionais (ou Não) na Esquina da Vida

Corrupção

23.01.20 | Cuca Margoux

Queremos profundamente acreditar que a meritocracia ainda é o mote que premeia o sucesso dos nossos gestores e empresários, num mundo de carreiras brilhantes e de mentes, supostamente, excepcionais. Na verdade, queremos apenas continuar iludidos acreditando numa premissa falaciosa e deveras reveladora, se soubermos ler bem nas entrelinhas com sentido crítico e livre de condicionamentos ou ideias pré concebidas meticulosamente manipuladas e devidamente veiculadas. É que toda a nossa história comprova que o sucesso empresarial resvala para o literal assassinato da ética, da moral e dos bons costumes. Ser bem sucedido implica invariavelmente em algum momento, aniquilar o próximo, ou seja, a concorrência, fazer negócios obscuros, tomar decisões prolíferas em danos massivos colaterais e até directos, destruir tudo e todos e fomentar, de preferência, o caos. O mundo dos negócios é implacável e, muitas vezes, fatal. A corrupção, nas suas mais diversas variantes, mais ou menos elaboradas e rebuscadas, é uma constante aparentemente subtilmente enraizada na nossa cultura empresarial e é por isso que espanta a credulidade das pessoas relativamente aos sucessos, supostamente imaculados e lineares, de tanta da nossa iluminada massa cinzenta empresarial. Quando surgem os escândalos, parece que a surpresa inocente se instala sempre de forma muito virginal. A audácia dos corajosos iluminados que desafiam e contornam o sistema e as lacunas legais é premiada e incentivada, presenciamo-lo com frequência, e o mal, na grande maioria das vezes, vence o bem, porque o mal tem poder, capital próprio e alheio confortável e robusto de backup e uma network dinâmica e que assenta em trocas negociais multilaterais de win-win entre gigantes intocáveis. Ou, supostamente, intocáveis. E é aqui que entra a política, enquanto instrumento e ferramenta, arma de arremesso delicada, na sua subtileza estratégica, na protecção a toda a acção negocial e a todos os verdadeiros intervenientes relevantes no backstage. A rede perfeita é criada. As pessoas instrumentalizadas. Os negócios tornam-se arrojados. O querer poder sempre mais materializa-se em acção que, exagerada, se torna, no entanto, descuidada, demasiado visível e escandalosa. E é aí que os erros revelam finalmente a verdade, a essência e as fragilidades. How the mighty fall. Também.

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