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A Esquina do Desencontro

Histórias de Desencontros Ficcionais (ou Não) na Esquina da Vida

A Virtual Realidade da Vida Que Vivemos

10.02.20 | Cuca Margoux

Os escritos definharam porque a realidade está em evaporação letal. O rodopio de asneiras acumuladas nos últimos tempos pela humanidade imatura e infantil, deixam antever, pouco efusivamente, uma melhoria de qualquer um dos estados condicionantes da vida humana, neste momento, e muito sinceramente, em momentos futuros. Uma pandemia generalizada (mais uma!), mas ainda não oficializada, um Brexit compulsivo e arrepiante (cujas consequências operacionais e reais ainda estão por descortinar verdadeiramente), um desimpeachment virtuoso, malfadado e supremamente controlado (com uma futura candidatura presidencial já em vista), greves incontáveis, orçamentos tirados a ferros (esperemos pelas votações na especialidade), quarentenas impostas, cidades fechadas (outras estranhamente descansadas), cidades fantasma, números controlados, numa mediatização ainda q.b., desarranjos europeus (novos e menos novos) e mais um sem fim de malfadadas odes à desgraçada espécie que continua e teima em conjurar contra si própria. E é isto que realmente mais fascina, neste turbilhão de acontecimentos controlados (esperamos nós!), apenas, por alguns (aceitamos nós!). O verdadeiro conhecimento das causas ultrapassa o true knowledge comum dos mortais. O discurso eternamente pessimista é repetitivo, claramente o sabemos, mas a variação na quotidiana manifestação de vontades, comportamentos, atitudes, decisões e acções humanas é já tão estanque e despropositada, sem alterações significativas portanto, que até o mais optimista destes comuns mortais se entrega à letargia e à apatia compulsivas do dolce fare niente relativamente ao que quer que seja e/ou aconteça. Vivemos a virtual realidade de uma vida não tão virtual, e virtuosa, assim. De facto, até queremos que a vida seja cada vez mais virtual, porque a acção da rotina diária cansa e torna-se monótona. É sempre mais do mesmo. Enfadonho, deveras. O mundo virtual permite a libertação da fantasia e da imaginação, a criatividade e a inovação sem limites. E com as consequências dissimuladas e subtilmente remetidas para o subconsciente. A consciência assim não pesa. Pois, que dizer de toda esta panóplia de mutabilidades imprevisíveis e desconcertantes? A mobilidade global contribui para esta intrigante e inquietante nova virtual realidade. E será mesmo tudo isto que vivemos real ou uma simples e estupidificante criação virtual para nos entreter com enganadoras insignificâncias? Temos tudo, ou quase tudo, à distância de um clique, pensamos cada vez menos, porque está tudo disponível no smartphone ou numa qualquer página da net, acreditamos em quase tudo sem questionar verdadeiramente, queremos viver um bocadinho de vida sossegada e o mais descansada possível, sem grandes tormentos, linear de preferência, e sem incómodos ou surpresas, inconstâncias ou complicações. Mas, sem tudo isto, o que resta? Como se enche então o vazio cinzento? Não sei...