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A Esquina do Desencontro

Histórias de Desencontros Ficcionais (ou Não) na Esquina da Vida

A Viragem Inesperada

25.06.18 | Cuca Margoux

Começou há muito tempo aquela que seria a viagem mais inesperada da sua vida. O espaço escondia a destreza da acção. O caminhar constante, na direcção da festa prometida, deixava adivinhar pretensos motivos sem falsos pretextos. A viagem seduzia e a fragilidade do descontentamento humano reprovava, demoradamente, um estar de alma sem nexo. Tudo apontava, no início, numa única direcção. No entanto, a conversa mediada deixou transparecer o acto ficcional do pensamento mais abstracto e, assim, a entrega da alma desperta o sentido da vida abafada. Foi pois, sem grande surpresa que a viragem se deu. Num precioso momento de inesperada insensatez, a ocultação primária dos sentidos fora ofuscada e delegada na mente esquecida. A viagem inesperada ao submundo da realidade virtual sucumbia, por fim, aos encantos de um estado de sítio temporário da alma, agora penetrada pela inteligível glória de um passado ausente. Assim, o corpo que caminhava na direcção da festa prometida, esquecia, por momentos, o programa rígido corrido diariamente, numa rotina cansativa e pouco imaginativa. O corpo movia-se impelido pela razão, mas o coração, por vezes, tinha a última palavra e determinava a nova acção. O espaço percorrido permitia levitar mentalmente, numa outra dimensão. Ao longe, os sons inebriantes da festa prometida ecoavam compassadamente. Aqueles sons invadiam o corpo e abraçavam, finalmente, o quase impenetrável coração. O corpo, que seguia frio e rígido, despertava. O coração aquecia e a alma fluía. Este reencontro com a acção da vida, devolvia a originalidade da dança e do canto ao corpo, inicialmente distante e apático. Agora, tudo voltava a fazer sentido. Tudo seguia uma linha condutora com nexo. O universo parecia, enfim, completo e acabado, centrado naquele corpo devolvido ao encanto da esperança existencial.