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A Esquina do Desencontro

Histórias de Desencontros Ficcionais (ou Não) na Esquina da Vida

A Esquina do Desencontro

Histórias de Desencontros Ficcionais (ou Não) na Esquina da Vida

A Minha Escola

A mãe acordou-a docemente com um beijo ternurento, ainda era de madrugada. Não havia luz lá fora e o breu ainda cobria a noite que queria fazer-se manhã. O despontar do sol chegaria a qualquer momento, mas teimava em atrasar-se de mansinho. A mãe sussurrou ao ouvido da petiz que aquele dia se revelaria único, muito especial e de extrema importância, ainda que velada, para a vida da pequena estremunhada que só agora conseguia abrir aceitavelmente os olhos. Quando se apercebeu de que dia era, a pequena despertou qual furacão sem anúncio. Sabia que a escola esperava, enfim, por si e que crescera durante a noite, operara-se aquela mudança de idade, prontamente explicada pela mãe há algumas incontáveis semanas atrás. A minha escola, pensou. Levantou-se, vestiu-se, degustou deliciada o manjar matinal que habitualmente a mãe lhe preparava, com a não menos habitual sofreguidão, e despediu-se dela com um aceno efusivo e determinado. Para além de iniciar a sua vida académica, iniciava também a sua mobilidade escolar autonomamente, calcorreando alegremente, e sozinha, os quinhentos metros que a separavam do recinto do agrupamento. Muitas coisas iriam mudar. Muitas coisas iria aprender. Muitas novas amizades iria fazer. Estava verdadeiramente feliz. A mãe cuidava que tudo se iria compor, este ano, na escola. Contava-se que, e isto apesar da educação ser considerada um dos pilares estruturais fundamentais para a sustentabilidade, progresso, evolução e consolidação de um país, devido a politiquices não muito bem explicadas, a escola tinha perdido o seu brilho interior e anterior: havia menos professores, e qualificados, menos funcionários, menos meninos, menos qualidade de ensino e de infra-estruturas/equipamentos de apoio, alimentação nutricionalmente deficiente e desequilibrada, etc. Na realidade, a mãe da pequena não sabia muito bem o que esperar do novo ano lectivo, mas mantinha a fé e a esperança de que algo iria mudar. Para melhor. As preocupações, quer de pais, quer de alunos, com as suas escolas é perfeitamente natural. Faz parte das escolhas decisivas que se fazem na vida e, portanto, têm de ser ponderadas com calma e tempo e devidamente analisadas e interiorizadas. A rotina familiar muda drasticamente. A gestão das expectativas de crianças e adultos é, por isso, determinada pela urgência do assunto. O espírito crítico construtivo é, consequentemente, fulcral. Assim, quer-se crer que nem a mãe, nem a pequena se sentirão desiludidas quando o dia cair e a noite surgir. Tudo e todos encontrarão os seus delicados equilíbrios e o rumo certo será retomado, recuperando-se pois a senda mágica do conhecimento e da iluminura. A minha escola o faz. A minha escola, decerto, o reforçará. Em espaços bem diferentes, os pensamentos comuns fizeram sorrir ambas.

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