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A Esquina do Desencontro

Histórias de Desencontros Ficcionais (ou Não) na Esquina da Vida

A Esquina do Desencontro

Histórias de Desencontros Ficcionais (ou Não) na Esquina da Vida

A Mansão dos Vitrais

Caminhava estremunhado pela viela, deambulando os pensamentos mirrados por cenários irreais e paisagens figurativas. Caminhava sozinho. Era habitual, desde que fizera inimigos os habitantes da terra de latadas densas, sem sorrisos ou condescendências. A vida voltara-se contra ele, num momento inglório e inesperado. Fugira do seu mundo controlado e encontrara uma paz temporária naquele lugarejo de que lhe falara um despreocupado inhumano ser, das noites lisboetas, seu so called buddy. A cabeça rodopiava. O corpo queria parar, encostar-se na parede fria e por ali ficar. Talvez conseguisse dormitar. A rotina, constatava, era irredutivelmente monótona, frustrantemente repetitiva e já durava há umas valentes luas novas. Desistira. Encosto-me e durmo. Preciso de dormir. A parede da Mansão dos Vitrais chamava por ele e ficou-se. Adormeceu. O sonho quente, instantâneo, fizera-o atravessar a parede grossa. Primeiro a cabeça a espreitar, com curiosidade, depois, o puxão do braço e afins. Viu-se dentro da Mansão. Os Vitrais, que outrora olhara sem história, pareciam-lhe agora imensamente desproporcionais. Cresceram. Contam histórias das gentes do lugarejo. Observou-os com mais atenção, com pormenor de interesse verdadeiro e imaginou. Imaginou-se nas histórias contadas. Um personagem qualquer que invade o vidro e quebra a sequência temporal dos contos. A magia esconde-se por aqui. Entro nas histórias, visto um papel, decoro uma fala, acrescento um conto. Sinto-me leve. A Mansão dos Vitrais emana magia e fantasia de outros tempos. Deixo-me levar. Quero apenas esquecer a minha vida. Viver uma outra vida, ainda que irreal. Sonhar liberta-me. Um estrondo transporta-me à realidade. Acordo em sobressalto. Saí do sonho e regressei. Deixei para trás um mundo virtual, um mundo de paz, serenidade, ilusão e indolor. Levanto-me e sigo caminho. Um novo caminho. Um novo rumo. Uma nova história, numa outra Mansão qualquer com que me cruze, nesta senda infinita e solitária. Não mais haverá companhia. Só a minha alma decadente e o meu corpo moribundo. A quest indefinida redefine-se, soma e segue. Estou vivo, afinal. Continuo pela viela. Afasto-me dos inimigos da terra de latadas densas e desço ao reino dos céus. Os céus estão na terra. Escondidos, por certo, mas na terra. Procuro-os. É essa a minha missão. É esse o meu credo, a minha fé. Caminho. Sempre. Até me encontrar, por fim. Algures.

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