Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

A Esquina do Desencontro

Histórias de Desencontros Ficcionais (ou Não) na Esquina da Vida

A Madeira, Sem o Meu Pai

06.05.24 | Cuca Margoux

O mundo rouba-nos a vida. A vida rouba-nos o ser. O ser é pequeno, quando se perde sem sentido ao virar de uma esquina que, afinal, nos enganou. A escolha surge. As opções existem. Mas, como saber se a decisão é a mais acertada? Como não desiludir as pessoas e não frustrar as expectativas? Não sei. Só sei que tudo o que somos é magia ultrapassada, viragem descuidada, realidade obsoleta, visão condicionada. A ilha lá está. Continua viva e assim continuará até ao fim do mundo. Já as pessoas passam. Lá vivem, mas nunca ficam. A eternidade dos céus e da terra leva-as de nós, para bem longe. A chegada solitária aconteceu, a muito custo. A viagem não teve história, mas não vi a minha ilha na aproximação. O meu lugar, entre o oriente e o ocidente, no meio, não me permitiu abraçar com a vista desafogada a ilha mágica. Pelo sul se aterrou, sem medo ou contemplação. O vento esqueceu-se de soprar. Ainda bem. A saída não foi efusiva, mas sim resignada. A evidência de que as coisas aconteceriam apenas se eu as fizesse acontecer era clara na minha mente. E eu tinha milhentas coisas para fazer acontecer. O carro lá me esperava. As perguntas da praxe fizeram brotar nos olhos as lágrimas esquecidas. E, assim, assinei eu os papéis e levantei o carro. Sozinha. O calor fazia-se sentir, mas, desta vez, não era húmido. A serra húmida esqueceu-se de enviar os seus encantos para as ambiências junto ao mar. Lá peguei no carro e segui para a Cidade. A minha Cidade. Estacionei no sítio do costume, mas o parque estava cheio, sinal de que a Festa da Flor estava mesmo a acontecer. Levei apenas o essencial para a deambulação necessária pela Cidade. Primeiro, uma queijada na Penha D’Águia da Sé. Depois, levantar a “dormida” na Decathlon. O saco-cama encomendado online a partir de Lisboa, lá me esperava. É realmente fabuloso o que se consegue resolver através de cliques numa realidade virtual. Mas, nem tudo funciona bem online. Por vezes, os procedimentos não permitem resolver coisas simples através da “realidade virtual” e as empresas de utilities tudo complicam. O Plaza acolheu-me e sanei o problema dos pagamentos por débito directo. Escusado será dizer que a Cidade estava a abarrotar de turistas. A Festa da Flor atrai cada vez mais gente de todos os cantos do mundo e a Cidade torna-se cosmopolita. A plataforma central da avenida, cheia de barraquinhas de “comes e bebes” e atracções florais, estava quase intransitável, tal era a acumulação do gentio. Depois do Plaza, esfomeada, lembrei-me de dar um salto até ao “Castelo dos Hambúrgueres”. Já tinha saudades. Nunca desilude. Sabemos exactamente o que esperar e lá pedi um “Normal” e, claro, uma Brisa Maracujá. Áquela hora, o pequeno restaurante estava vazio e pude desfrutar em paz e sossego do meu merecido repasto. Para terminar, e já de novo na placa central das barraquinhas, esperei na fila para matar mais saudades, desta vez, de um verdadeiramente verdadeiro bolo do caco com manteiga de alho. Fui ao cais, fotografei a Cidade e parti para o norte, mas não tão rapidamente quanto esperaria, porque afinal o trânsito infernal não acontece só em Lisboa. Já na Via Rápida, ao som da Antena 3, a única rádio com música mais ou menos sofrível que era sintonizável, pude, finalmente, deixar-me levar quase em automático até ao ninho. Ainda parei para umas compras domésticas em Santana, onde a serenidade reinava no supermercado, mas, rapidamente o abandonei para me fazer de novo à estrada. E lá estava à vista o meu ninho. A estrada municipal foi, finalmente, asfaltada e a freguesia já pode receber sem solavancos os seus habitantes e os poucos turistas curiosos que a visitam, especialmente para se deliciarem com a Igreja e com os percursos pedestres, nomeadamente com aquele que os leva até à Levada do Rei. Mas, também há miradouros fabulosos, um Moinho de Água e uma Serragem de Água, para além de um restaurante com a típica gastronomia local e regional, a “Casa de Palha”, e um outro no antigo Fio, cuja vista deslumbra qualquer um que se deixe encantar pela beleza natural da paisagem intensa e dramática da ilha, bem como o nosso incontornável Calhau com a sua lagoa e as ruínas fotografáveis. Enfim, em casa, acomodei-me, desencantei um rádio e deixei-me encher pela música, de novo, da Antena 3 (não se sintoniza mesmo mais nada), para não sentir o vazio de estar, pela primeira vez, em 49 anos, sozinha naquela casa. O saco-cama cumpriu o seu papel e tentei descansar. Fui dormitando e acordando ao longo da noite e madrugada, porque, afinal, os galos não cantam só ao nascer da manhã e a passarada chilreia durante o escuro. De manhã, fui buscar a minha “cana bordão”, a qual, agora, ainda tem mais valor sentimental, porque foi “trabalhada” pelo meu pai, e parti para a caminhada matinal pela freguesia. O mundo parece sempre mais sereno quando caminho e a paisagem deslumbrante ajuda a pensar e a acalmar. Passo sempre por todos os sítios icónicos, o cemitério incluído, para lembrar a extensa família e os amigos, e a bela Igreja. Claro que a família viva já fora toda visitada e encontra-se sempre pelas ruas alguém conhecido. É impossível não admirar as ternurentas idades dos mais velhos que atingem já, em muitos casos, quase as 98 primaveras. De regresso a casa, as arrumações necessárias para deixar tudo orientado para a visita grande no Verão. Ainda fui deixar uma rosa apanhada no quintal de casa ao mar do Calhau, em memória dos que me deixaram sozinha. Afinal, senti que todos me acompanhavam. De volta ao aeroporto de onde tinha partido no dia anterior, apesar de cansada, estava um pouco mais cheia de mim, outra vez. Assim foi a Madeira, sem o meu pai.