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A Esquina do Desencontro

Histórias de Desencontros Ficcionais (ou Não) na Esquina da Vida

A Esquina do Desencontro

Histórias de Desencontros Ficcionais (ou Não) na Esquina da Vida

A História Perdida de Todos Nós

A explosão intensa desintegrara em larga escala o pavilhão de estrutura atomicista e as pessoas, em redor, movimentavam-se desorientadas e fustigadas pela nuvem de fumo que as envolvia e pela onda de impacto da deslocação veloz do ar arrastado. Havia sido perdido o contacto. O contacto com o mundo exterior. O portal fora destruído num acesso de raiva descontrolado do criador e empreendedor do projecto. A vida começara a passar-lhe ao lado e ele quisera desistir dela, terminando o que há tão pouco tempo tinha começado, a sério. O experimentalismo subsistia há eternidades, mas, só nesta linha temporal limitada, tinha conseguido conectar-se ao mundo para lá do nosso. Aquela porta para o mundo exterior das histórias interiores de todos nós, tornara-se, no entanto, um perigo e ele apercebera-se disso. Todos queriam conhecer a sua própria história perdida, na esperança de recuperarem algo que, na realidade, jamais existiu, uma vez que não é possível cruzar os destinos do universo paralelo com os destinos do universo real. Temos de vivê-los separadamente. Assim, o empreendimento era um pesadelo também para ele, uma vez que ele próprio nunca conseguiria reencontrar a sua história perdida. E foi aí, nesse dia fatídico em que descobriu a irracionalidade e o surreal de tudo aquilo, que desistiu. Acumulou a energia da luta interior meretriz e descarregou-a no mundo. Anos de pesquisa deitados fora e o resultado, testado temporariamente, tão débil e ainda sem solidez suficiente para invadir os anais aceites da ciência iluminada, desperdiçado. Sem dúvida, havia-se precipitado estupidamente. Agora, jamais alcançaria a glória e a imortalidade. A história perdida de todos nós havia-se definitivamente desvanecido por causa de uma emoção temperamental negativa insignificante, quando comparada com o bem que se podia trazer à civilização tão carente de histórias, de passado, de entendimento, de um porto mais seguro que o presente. Não restou nada. Tudo se perdeu. Tudo se esfumou. Tudo se esqueceu. E as histórias perdidas esqueceram-se. É por isso, que ainda hoje, tentamos agarrar-nos às nossas memórias com tanto afinco. Para não esquecermos as novas histórias e não as perdermos também.

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