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A Esquina do Desencontro

Histórias de Desencontros Ficcionais (ou Não) na Esquina da Vida

A Esquina do Desencontro

Histórias de Desencontros Ficcionais (ou Não) na Esquina da Vida

A Criação da Imperatriz

A Imperatriz traçou o destino da criança e determinou a sua esperança de vida. Infinita seria. O Mentor dos Homens seria Imortal, Sábio e Perfeito. A Mãe, de boas famílias e boas descendências, fora escolhida criteriosamente, para que a provecta gestação da criança fosse garantida e para que a gravidez chegasse ao seu termo, plena, saudável e com o sucesso desejado. O Pai tinha sangue real e descendia das divindades supremas. Tudo apontava, por isso, para que aquele engenhoso processo natural combinado, há muito ambicionado pelas tribos nobilíssimas divinas, decorresse sem sobressaltos de maior ou surpresas olvidadas e inesperadas. Acontece que o corpo humano, com o seu subjugar da alvoraçada e desregrada genética, perfila a tentação da diferença e da diversidade heterogénea, conjugada com a intervenção holística omnipresente. Assim, aquele cruzamento laboratorial experimentalista de gâmetas humanos, cujo zigoto nidificou inesperadamente em útero incerto e alheio, traduziu-se numa espantosa e imprevista evolução espontânea da sequência genética artificializada. A maravilhosa máquina reprodutora fechou-se e protegeu o seu embrião. O desenvolvimento embrionário decorreu exponencialmente e as fases sequenciais foram esquecidas e as que acontecerem, foram rapidamente ultrapassadas. O embrião tornou-se feto e saiu para o mundo. Um mundo que observou incrédulo as suas extraordinárias mudanças, o crescimento desmedido e o amadurecimento surreal. Algo se tinha transformado naquele processo enigmático. Algo que a Imperatriz não controlou. A natureza humana cortara as amarras da vida realista e libertara as variáveis independentes do imaginário paranormal e abstracto. Assistia-se a um fenómeno sem paralelo histórico e a premissa da selecção evolucionista natural quedava-se, no instantâneo, pela improbabilidade estatística de factos pouco comprováveis e, eventualmente até, credíveis ou aceitáveis. Aquele ser Imortal, Sábio e Perfeito era a resolução insolvível das divindades e do humano. A pacatez da volatilidade fluida, absorvia as energias de tudo e todos em seu redor. O Mentor dos Homens estava sozinho numa redoma, numa bolha angustiante que haviam criado ao criarem-no a ele. A Imperatriz não previra isso. O Mentor dos Homens sofria por dentro e por fora, na sua diferença inevitável e irreversível. Sentia-se monstruoso, arrebatado pela incompreensão leiga alheia. A Imperatriz não sabia o que fazer. Enviou-o, então, para as cavernas escuras das Montanhas Desoladoras e tentou esquecê-lo. Esperava, assim, que o mundo também o fizesse. Conta a lenda que, ainda hoje, o Mentor dos Homens, lá continua, esquecido, mas sempre velando pela humanidade perdida que ele acredita existir ainda no coração escurecido da Imperatriz e dos Homens.

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