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A Esquina do Desencontro

Histórias de Desencontros Ficcionais (ou Não) na Esquina da Vida

A Esquina do Desencontro

Histórias de Desencontros Ficcionais (ou Não) na Esquina da Vida

A Casa da Vila

As casas caiadas, de persianas esbatidas de despropositado verde ignóbil, portas vidradas de soleira intemporal e desacatos esquecidos, escondem no aglomerado manto branco uma casa diferente, a Casa da Vila. A Casa da Vila é amarela. Está pintada de um amarelo escandalosamente vivo e tremebundo. Ninguém gosta muito de se aproximar daquela casa. Dizem que é lá que vive, ainda, bem fechada a sete chaves na debilitada mente escura da matriarca ancestral de uma estranha família, cuja cataxia aparatosa se desvanece sempre que alguém tenta descortinar o sentido da história da dita família, acontecimentos idos que alabirintaram os caminhos da velha senhora e das gerações vindouras. Escondem-se segredos há muito, na Casa da Vila, mas ninguém parece querer mexer no passado. O presente vive-se e o futuro nunca se sabe se será, por isso, a matriarca, entreconhece a mudez espaçadamente e quando lhe apraz. Todos cochicham, todos acalentam a imaginação fértil, todos querem saber, mas, na realidade, ninguém sabe. O mordomo e a criada da matriarca afiguram-se inalcançáveis. Ninguém lhes arranca um único trejeito, movimento ou eufonia. Sabe-se que a visita um sobrinho que mora lá longe, para trás do sol posto, nas terras de nenhures e de ninguém. Emigrou e fugiu do seu destino. Mas, também pouco se sabe sobre este ser espectral. O certo é que a Casa da Vila parece sempre envolta em nevoeiro matinal que teima em dispersar, talvez porque os espíritos que a habitam padecem de saudade terrena e teimam em ficar. O sol quer abrir os seus quentes raios e iluminar a casa, mas um aceno aos Deuses, por parte da matriarca, agoiram as intenções e, assim, as intenções não passam disso mesmo. Houve, no entanto, uma mudança. No início de Maio último, uma pequena rosa vermelha começou a despontar, como que por artes mágicas ou extramundanas, numa das paredes da Casa da Vila. Dizem, agora, as gentes locais, tratar-se da reencarnação da alma sofrida de uma das filhas da matriarca. Alguém conta que a matriarca teve três filhas e um filho, mas nunca se lhes ouviu um riso, um som, uma conversa ou tão pouco, almas ou os corpos. Morreram em petizes, talvez. Navegamos por mares desconhecidos, enfrentamos suposições, condicionamentos, constrangimentos, inquisições, especulações. A verdade sobre a Casa da Vila e sobre a sua matriarca, sobre a rosa vermelha, jamais será conhecida, mas o gnosticismo subentendido deixa no ar aquele quê de curiosidade despertada para eventuais futurologias mais aventureiras e indagações mais profundas. As gentes locais, piamente descrentes, acreditam que não. O momento certo chegará. O porvir o dirá.

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