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A Esquina do Desencontro

Histórias de Desencontros Ficcionais (ou Não) na Esquina da Vida

A Esquina do Desencontro

Histórias de Desencontros Ficcionais (ou Não) na Esquina da Vida

Se Eu Fosse Eu (Histórias de Uma Vida Banal) - "O Outro Eu" (Parte II)

E outra e outra e outra vez! E chorou e riu e cantou e dançou e quis morrer, ainda outra vez! Longe, bem longe de tudo e de todos! No deserto da sua alma, na praia do seu corpo, no jardim do seu coração! No seu outro eu! Aquele que a deixou ser feliz, ainda que por breves e preciosos instantes de uma paz enganadora e momentaneamente ao seu frágil alcance. Onde te esconderam os psicóticos animais enfurecidos por metáforas inexistentes da criatividade castrada? Outro eu!? Estiveste sempre aí? Quero olhar-te! Tocar-te! Beber-te! Fundir-me! Refugiaste-te? Naquele canto da solidão ausente, naquele poço de sofrimento atroz de um cérebro quase mórbido, alentado apenas por uma fosca luz de ténue coloração, feita de sangue e de pecado mortal? Salvar-me-às? Até onde me queres arrastar? Ao Inferno ou ao Céu? À Terra ou ao Mar? À Lua ou ao Sol? A. cansou-se! Quebrou, outra vez e outra e outra e ainda outra! Outro eu?! Para onde se libertou a sanidade de A.? Outro eu?! Salvar-me-às? Serás capaz de olhar A. e de a amar? Incondicionalmente? Porque é o Amor que ela busca! Porque é a cor da vida que ela chama! Porque é o fogo da tua essência que ela implora! Porque o outro eu de A. somos nós!

Se Eu Fosse Eu (Histórias de Uma Vida Banal) - "O Outro Eu" (Parte I)

O despertador tocou musicalmente no quarto de A. Acordou. Resmungou. Estremunhou. Virou-se. Espreguiçou-se. Movimentos lentos e desarticulados numa dança rotineira que, quebrando a sonolência de um sonho acordado, revelaram um esforço infrutífero e estupidamente inglório para elevar a alma e o corpo ao céu do mundo. Ou talvez, só ao céu do quarto. Pronto. A. acordou. Manifestamente revoltada com esta incontornável condição imposta, de um acordar brutal e eruptivo, ainda que musical, levantou-se finalmente e com uma elegância desajeitada do glamour perdido pela noite mal dormida, flutuou em espiral descendente (ou deveria ser ascendente?!) até bater com o nariz na porta. Outro quarto? Ali costumava tomar banhos perfumados e relaxantes. Estranhou a falta da banheira floreada de miosótis e gardénias. As toalhas frutadas e macias nas maçãs do seu rosto e na juventude do seu corpo. O espelho reflectindo a sua enigmática e pouco exuberante sombra. Que estranho quarto, observou! Sabia que o universo paralelo existia apenas na sua mente demente (alguns diziam!) e que a sua vívida e fértil imaginação esquizofrénica permitia pintar quadros e construir cenários fabulosamente elaborados, coloridos até, porém, irreais! Surpresa! O despertador acordou, de novo, e emitiu, numa onda acústica de notas musicais de classicismo puritano, a 9ª Sinfonia de B. A música envolveu A. e percorreu todos os poros, massacrando delicada, pausada e positivamente todos os sentidos. Sim, o massacre era real e corrosivo! Porquê tentar fugir? Ouvi-la era uma tortura, uma aberração de um passado presente, incógnito e volúvel, improvável e suplicante! E A. sentiu-se quebrar, como em tantas outras manhãs (ou noites!) de uma vida vazia, oca de sentido, de razão, de emoção. Quebrou antes de se vestir! Outra vez!

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