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A Esquina do Desencontro

Histórias de Desencontros Ficcionais (ou Não) na Esquina da Vida

A Esquina do Desencontro

Histórias de Desencontros Ficcionais (ou Não) na Esquina da Vida

O Lado Obscuro do Amar - Histórias de 1 Amor Surreal - "Reencontrar" (Parte II)

O cheiro a vida acentuou-se e os mares cristalizaram as correntes dos golfos, perseguindo o planctôn disperso e volátil, massificado na corrente intempestuosa do milagre extra-terreno da vida desumanizada da pérfida razão de ser do ser misteriosamente humano. Acalmaram-se os cegos, calaram-se os mudos, sussurraram-se aos surdos, convidaram-se os ausentes e mataram-se os vivos. Estranho reencontrar do sombrio presente do futuro aguardado. O timing quedou-se, os braços abriram-se, as carnes petrificaram e os sonhos renasceram no contra-ciclo da reencarnação. Aleluia, disseram. Aleluia, reencontraram. Aleluia, reencontrarão.

O Lado Obscuro do Amar - Histórias de 1 Amor Surreal - "Reencontrar" (Parte I)

Sempre o amou. Sempre o odiou. Desde o primeiro momento, estavam condenados ao desencontro da vida, perdidos no labirinto do tempo e do espaço. Jamais esperariam perdoar-se um ao outro. O infatigável palácio gelado das emoções concentrava os despojos invernais da esperança consumida nas estações de retempero emocional. Guiaram-se nas estradas infinitas de plátanos e zimbreiros, chaminés de fumeiros, lareiras inconstantes, gentes inconsoláveis. Caminharam, lado a lado, na luta, na labuta, na perdição, no encantamento, na religiosidade, na comunhão santificada das santas terrinhas, perdidas atrás dos montes. Seguiram o caminho, guiaram-lhes os passos, sopraram a brisa uma, duas, três vezes, antes de desaparecerem na escuridão da deusa medusa falante. Auscultaram a profecia, penduraram candelabros, esculpiram santos e altares, arrastaram-se penosamente na demanda inconsequente do barroco fútil e do manuelino esquecido. Alcançaram, invejosamente, em tempos, o céu. Perspetivaram o que lhes ensinaram, fotografando e pintando, colorindo e enegrecendo a fantasia extaseante do coração apaixonado, oculto na viela obscura da vivência subtil dos padrões escondidos na calçada da rua. Tombaram, é certo. Ergueram-se e bradaram ao sol e à lua. Nadaram, luminosos, numa nudez inebriante, envolvendo magia e poderosa redenção. No fim, reencontrar, era tudo o que queriam. Reencontrar o que perderam, o que faltou, o que fugiu, o que nunca pareceu haver. Na alma, o corpo sumiu. No corpo, a alma reacendeu. Tantos anos de espera, tantos anos de remissão, tantos anos de afastamento consciente. Resultou uma perda maior. Os sentidos escapuliram os tentáculos ousados e entrelaçaram-se em fios de ouro cadentes da nebulosa de sonhos, envolta em estrias de neve ofuscante, camuflados na transparência ignóbil dos vapores ancestrais de reinos de além-mar. Foi brutal reencontrar. O reencontro. O choque viral, visual e físico, da história que se contara antes do nascimento foi quase fatal. Olharam-se, uma e outra vez, pausadamente, conscienciosamente, docilmente, perpetuando naquele sagaz momento o que anteviram numa linha sem retorno de vida não vivida. E assim, esqueceram. Deixaram o que os magoava e feria e passaram a entregar-se um ao outro, sem arrependimento, sem esperança, sem medo. Fundiram-se na árvore do caminho, na terra dos baldios, nas flores e nas folhas da primavera, na tundra e na savana dos hemisférios, no equador da repartição, nos meridianos da colaterização.

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