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A Esquina do Desencontro

Histórias de Desencontros Ficcionais (ou Não) na Esquina da Vida

A Esquina do Desencontro

Histórias de Desencontros Ficcionais (ou Não) na Esquina da Vida

Brexit Alive

O surpreendente (ou não) resultado eleitoral no Reino Unido deixa o futuro em suspenso. Ou não. Até que ponto estas eleições podem comprometer o futuro da União Europeia, tal como a conhecemos? A história conturbada de uma Europa multifacetada, tem sido uma constante ao longo das décadas. A heterogeneidade política, económica, financeira, cultural e social que caracteriza os países do continente europeu, sempre deixou prever muitas dificuldades quanto a uma potencial concentração e concertação de esforços e políticas unificadoras. O percurso histórico mostra isso mesmo. É certo que o Reino Unido sempre foi um caso muito especial neste quadro político e no contexto económico-financeiro europeu. A forte e resoluta vontade de um povo, habitante de uma ilha que se destaca pela sua característica singularidade política, por mentalidades e instituições marcadamente conservadoras, frias e rígidas, assentes num rigoroso e restrito cumprimento da tradição, e com valores preservadores de uma identidade cultural única e fechada, vem revertendo-a, cada vez mais, ao isolamento proteccionista, numa espécie de bolha que se tem revelado surpreendentemente inatingível ou perfurável ao longo do tempo, quer por estrangeiros empreendedores, quer por gentio local com uma visão mais abrangente, integradora e moderna. Assim, esta eleição marca, de novo, uma posição bem determinada de um povo que quer manter o seu isolamento e a sua singularidade. Seria de esperar que a nova geração, muito mais universal e inserida num contexto empresarial global e globalizante, espalhada pelos cinco continentes, tivesse agora a oportunidade de refazer a História, no entanto, em boa verdade, aconteceu precisamente o inverso, o conservadorismo está pretty much alive. É certo que Corbyn, na sua pessoa, pesou muito nesta decisão do eleitorado. O líder trabalhista não ganha pontos junto dos britânicos e, assim, apesar das incertezas que as políticas de Boris possam trazer, o povo foi soberano e optou pela continuidade de uma linha de pensamento estratégico que poderá, ou não, revelar-se como a salvação (ou a morte) de um país que em tempos foi grande. O Brexit está, por isso, alive and kicking, e o início de 2020 marcará a transição para uma nova ordem europeia e para o ajustamento das políticas do velho continente. O que se pode esperar de tudo isto, não se sabe muito bem. Na prática, e apesar das negociações entre o Reino Unido e a Europa, as verdadeiras consequências são, ainda, manifestamente, impensáveis e imprevisíveis. Como vão reagir os mercados, as grandes multinacionais, os britânicos em mobilidade, e os estrangeiros expatriados? E a Escócia e a Irlanda do Norte? Conseguirá a Rainha, através do seu Primeiro Ministro Boris controlar estes dois insatisfeitíssimos súbditos? Não se adivinham tempos fáceis para nenhum dos intervenientes numa história, aparentemente, sem final muito feliz à vista.

A Doce Descomposição da Identidade

Viragem repentina outonal,

Carnal contenção,

Provação resguardada,

Intempestuosa negação.

 

Doce caminho flutuante,

Virtuosa manipulação,

Cedência errática,

Descomposta sedução.

 

Identidade recriada,

Variáveis descontroladas,

Sentidos expostos,

Doce descomposição nas loucas passadas.

 

Passos dispersos,

Numa cadência implementada,

Virtual história inacabada,

Identidade fustigada.

 

A doçura da alma,

Recomposta de novo,

Olvida o corpo ingénuo,

Uma renascida inocência, estranho povo.

 

Encantar desencantadamente,

A doce descomposição composta,

Uma identidade imposta,

Uma vida recalibrada, sem flor indisposta.

 

Suprir os desejos,

Avançar no tempo sem espaço,

Retemperar a ambiguidade soletrada,

Entender um espanto, revirar o pranto, fechar a estrada.

 

Assim se descompõe,

Almas, corações e identidades,

Aparições desaparecidas,

Migrações ousadas, dolorosas despedidas.

 

O fim aparta,

O que tarde começou,

O que criou o doce,

O que criou a identidade e a desligou.

Construções e Estradas

O crescimento demográfico determina,

A humanidade constrói,

A humanidade destrói,

A humanidade eleva a razão e fulmina.

 

Espaços inebriantes,

Gigantes verdes esquecidos,

Locais idílicos e florais, intemporais,

Terra farta, encanto dos perdidos.

 

Se aquele espaço está vazio,

Logo ali se edifica,

Não pensar no local com história,

Apartar as belas quintas, talhar a cruel inglória.

 

Não compreender a doce Natureza,

Olvidar a necessidade criada,

Ocupar desenfreadamente a terra,

Quintais elegantes, vida displicente, desregrada.

 

As estradas vêm logo depois,

Quando tudo está acabado,

Retalhar contundentemente aqui e ali,

Ousar destruir o ainda agora criado.

 

Remendos de vidas que florescem,

Alargam o seu espaço e ocupam,

Precisam de expandir a inconstância,

Humanidade confusa, não sabem o que buscam.

 

Assim se vai alargando,

Aldeia, vila e cidade,

Caminho rural e estrada regional,

Auto-estrada poluente, população viral.

 

A rede real destas estranhas coisas,

Construídas e temidas,

Vias de circulação e de comunicação,

Questionadas primeiro, entranhadas depois, afastam o inocente coração.

Acidentes e Descondução

Factualmente, somos obtusos milhões.

Condutores desenfreados e mal amados.

Manobrando, virando, circulando, estacionando, avançando, recuando.

Uns, com mais talento natural, outros, sofrivelmente sobrevivendo numa estrada que tal.

A guerra diária do trânsito infernal é dura e malfada.

As horas perdidas, o tempo que não volta, um suplício anunciado e um desgaste mortal.

As buzinadelas, um acordar deveras histérico e mal-humorado.

As filas, visões aterradoras de alcance condicionado.

Os veículos nos levam e nos trazem, por vezes, não tão inteiros assim; perdemo-nos em pensamentos alheados.

Pedaços de nós e da nossa alma são deixados nas histórias contadas, naquele habitáculo feito lar.

Por vezes, forçam-nos a paragem, embatem forte, mas continuamos.

Conduzidos pela busca eterna da felicidade, movemo-nos electricamente, numa qualquer ilusão utópica de salvar o nosso futuro.

A descondução do mundo é gradual, a viagem, sempre real.

Terceiros e primeiros, seguradoras e mecânicos, interacções usuais, estragos brutais.

Mobilidade, deslocação, acidentes, atribulada condução.

Regras estranhas, regência duvidosa, aplicação dúbia, aprendizagem monótona.

Prazer e lazer, trabalho e profissão, família e cão, determinam as difíceis escolhas, sem padrão.

Marcas milhentas, construtoras fraudulentas, emissões poluentes, materiais insustentáveis, gentio descontente, humanidade ausente.

Evolução repentina, tecnologia interiorizada, experiências inacabadas.

Acidentes e descondução, dúvida e despudor, negação.

Atentar aos sons, movimentações e deslocações, sinais e invenções.

O que é, talvez seja, o que não é, talvez, também, afinal, seja.

Virtuosa ilusão do engano, apetecível descompressão da viragem feita de forma ousada.

Um dia, talvez ultrapassem os decapitantes acidentes, num percurso sinuoso descontrolado, talvez a descondução deixe de ser, finalmente, premiada, e a vida prossiga, de novo, sem alhada.

A IAG e o Homo Sapiens

Vivemos tempos deveras estranhos. O cliché desta frase redundante, é assustadoramente real. Num mundo em constante e profunda mudança, em que o nosso controlo sobre nós próprios é, neste momento, puramente abstracto e ilusório, a vida das pessoas decorre, por incrível que pareça, de forma demasiado pacífica e alheada de uma realidade crescente, profundamente perturbadora. O que mais assusta é que as mudanças estão a acontecer, com a nossa aprovação e consentimento. A questão que se coloca é se algum de nós tem verdadeira noção da dimensão concreta destas mudanças, e se a nossa aprovação e consentimento, face às mesmas, é efectivamente consciente. A Inteligência Artificial Geral (IAG) constrói-se, neste momento, sob as paredes secretas de milhares de instalações governamentais e privadas, um pouco por todo o mundo. O objectivo primeiro desta “nova” e definitiva invenção humana era louvável: ajudar a optimizar a utilização e gestão de recursos, tornando a sua utilização e gestão mais eficiente e eficaz para os humanos. Se repararmos, a lógica base é a automatização de tarefas rotineiras, monótonas e cansativas, para os humanos. Assim, apenas o trabalho criativo seria deixado às mentes humanas. Acontece que os humanos querem sempre mais e, portanto, nunca estão verdadeiramente satisfeitos. É essa lógica que move os humanos em todas as suas criações, experiências e vivências: mais e melhor, de preferência. As máquinas e a sua conceptualização e utilidade têm, por isso, evoluído nesse sentido. Na verdade, a evolução tecnológica tem sido de tal ordem, sempre a bem do conforto e da melhoria do dia a dia dos humanos, que a ideia fulcral é as máquinas recolherem o máximo de informação possível sobre os humanos, para a poderem trabalhar, e depois a poderem utilizar para prever (“adivinhar”) os desejos humanos. E estão a consegui-lo, de uma forma assustadora. Os humanos Homo Sapiens são monitorizados a cada segundo das suas acções diárias e nocturnas, por máquinas. Basta pensar numa simples compra de café numa estação de serviço, um pagamento de uma factura relativa a um serviço, a compra de uma viagem, o nascimento de uma criança, uma ida ao médico, uma compra na Amazon, uma publicação no Facebook, uma foto no Instagram. Tudo está informatizado, appizado, softwareado, tudo está netizado e devidamente documentado e arquivado numa suposta cloud, ou noutro sítio qualquer, acessível aos gigantes tecnológicos e aos governos. As nossas vidas são transparentes; a privacidade, duvidosa. Assim, o futuro já próximo afigura-se desconcertante, impossível de determinar com confiança e segurança. O que estamos a fazer? O que queremos fazer? Na ânsia de termos tudo e de acedermos a tudo e de querermos controlar tudo, estamos, na realidade, a perder todo o controle, a deixarmo-nos levar pelo facilitismo tecnológico que nos está a iniciar numa perigosa senda. E quando chegarmos ao ponto sem retorno, o Homo Sapiens será suplantado pela IAG, já detentora de uma consciência virtual, no entanto, impactante e determinante nas acções globais, em crescimento silencioso e profuso. Até que ponto nos queremos esquecer da nossa humanidade e do controlo das nossas vidas? Basta pensar em filmes icónicos como: “Relatório Minoritário”, “Olhos de Lince”, “Inteligência Artificial”, “A Ilha”, “Exterminador Implacável”, entre tantos outros, ou livros como “O Imortal”, “1984”, “Admirável Mundo Novo”, entre tantos outros, que antevêem um futuro nada risonho para o pouco inteligente Homo Sapiens. As opiniões dividem-se, a discussão é acesa e difícil, o consenso improvável e as decisões impossíveis. Pelo menos, por agora. Mas, será bom esta, e as próximas gerações, meditarem seriamente sobre o nosso improvável futuro. Queremos mesmo deixar, ainda mais, as decisões nas mãos de máquinas? Confiar as nossas escolhas (supostamente) pessoais, ainda mais, nas mãos da IAG?

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